Kapsa “Pinta Vermelha”, uma raridade…

Desde que me conheço por gente, sempre gostei de imagens, motocicletas, movimento. E, nas brumas do tempo, lá pelos meus 7 anos de idade, tive meu primeiro contato com uma câmera fotográfica, que hoje se tornou raridade. Era do meu pai. Muitas fotos da família foram tiradas com ela. Uma câmera simples e robusta, com filme 120 (de rolo), caixa de baquelite preta e fabricada na década de 1950 pela legendária D. F. Vasconcelos. Tenho até hoje, funcionando e muito bem conservada.

Décio Fernandes Vasconcelos (daí o nome D. F. V.), inventor, físico e matemático autodidata,

Décio Fernandes Vasconcelos

fundou a empresa em 1941, com a produção de equipamentos ópticos militares, como telêmetros, binóculos, equipamentos de visão noturna. Com a absorção desse tipo de tecnologia foi incrementando sua lista de produtos e a partir da década de 1950, entrou para a área civil, com lupas, lunetas, e máquinas fotográficas, como esta icônica Kapsa.

Câmera Kapsa

Produziu também diversos conjuntos ópticos em estojos para o público juvenil no intuito de estimular o gosto e o conhecimento por Astronomia e Ciências, pois esses conjuntos vinham em caixas com diversos aparatos ópticos que quando montados, produziam binóculos, lupas, microscópios e lunetas. Esse conjunto se chamava Polyopticon e era vendido nas boas lojas de brinquedos.

Primeiramente, esta era chamada de “pinta vermelha”, devido àquele ponto vermelho acima da objetiva. Tinha ajustes de abertura em 22, 16 e 11, obtidas por meio de uma pequena alavanca no painel frontal, velocidade fixa em 1/100, com opção para B em exposição longa, objetiva fixa Vascromat com 110mm de distância focal.

O sistema de foco era constituído de um mecanismo contando com três opções fixas, como segue: primeira opção, de 1 a 2 metros da câmara até o objeto, segunda opção, de 2 a 8 metros e terceira opção, de 8 metros até infinito, obtidas também através de uma alavanca no painel frontal, logo abaixo do ajuste de abertura, que trocava pequenas lentes internas para produzir um determinado foco a cada distancia aproximada.

Oferecia também modelos com a pinta verde e azul, que eram mais simplificados – se é que podemos simplificar mais ainda. Mas na época, não era qualquer um que sabia manusear as alavancas, carregar o rolo de filme 120, etc. Abaixo, detalhe do modo 6X9, 8 poses e 4,5X6, 16 poses.

Chave seletora do modo 8 ou 16 poses

Com essa chave, que ficava no fundo da câmara, se visualizava o número da foto, colocando-a para a esquerda ou direita, dependendo da opção de 8 ou 16 fotos. Tinham duas janelinhas circulares com acrílico vermelho, para não impressionar o filme, como na foto acima. A opção de 8 ou 16 fotos já tinha que estar na mente do fotógrafo, pois dependia de todas essas operações prévias, inclusive fechar ou abrir aletas internas que explico logo abaixo!

Modo 6X9, com abas metálicas abertas,

Modo 4,5X6, com as abas metálicas fechadas.

Esses dois modos eram conseguidos retirando-se o magazine onde se colocava o filme 120, e rotacionando duas abas metálicas que diminuíam o tamanho da área (plano do filme), dobrando-se assim, o número de fotos. Para se retirar o magazine, existia uma chave rotativa atrás da câmara, que liberava o mecanismo, possibilitando-se carregar o filme e optar por 8 ou 16 poses.

Chave rotativa abre-fecha

O prédio da DFV, na AV. Indianópolis, 1706 em São Paulo, SP, ainda existe. Tinha até um domo que continha um observatório astronômico em funcionamento na época, fruto da visão de seu fundador, direcionada à ciência,

Antigo prédio sede da D. F. Vasconcelos

Até 2011, ainda existia atividade nessa construção de mais de 60 anos, porém, a DFV mudou-se para Valença, Rio de Janeiro, e intensificou sua produção de equipamentos ópticos cirúrgicos, em hospitais e clínicas pelo Brasil e mais de 60 países! Com a desativação por parte da DFV, esse prédio (que ficou abandonado e deteriorando-se por muitos anos) foi adquirido pelo CRECI (Conselho Regional de Corretores de Imóveis de São Paulo) que pretende conservar, restaurar e reabilitar o observatório, com seu domo. Pelo menos é o que se sabe até o momento.

Folheto de um folheto de carburador fabricado pela DFV

A DFV investiu também na fabricação de carburadores automotivos, entre os anos de 1970 e 1980, devido à sua grande experiência em equipamentos de precisão.

Um anúncio da década de 1940/50 dessa saudosa câmera, em uma loja popular de departamentos….

Anúncio da época

Quanto à minha relíquia, tenho até a capa de couro original…

Minha relíquia…

Fiz muitas fotos com ela mas a primeira foi da minha mãe, Dona Aurea como modelo, por volta de 1970…

Dna. Aurea

Numa manhã de sol, lá no quintal de casa.

Me desfiz de muita coisa nos últimos anos. Mas algumas não tem preço, e também nem motivo para se desfazer. Elas têm uma história, agregam lembranças boas de tempos bons

Essa é uma homenagem a essa antiga empresa dedicada a equipamentos ópticos de precisão, que me introduziu, ainda criança, no mundo da fotografia.

Referências e consultas:

Quem somos?

Sobre o prédio

Um pouco mais de história da DFV

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