Um ensaio sobre a banalização, capital e cérebro
Vivemos num mundo sob a pressão capitalista onde temos que ganhar, vender, sobreviver, disputar espaço com concorrentes, etc, etc… Nos negócios, no comércio, nos serviços. Já falei alguma coisa (não me lembro se aqui ou em outro sítio…) também sobre não se contaminar com o capitalismo.
Opa, pera aí!! Isso não é um discurso comunista ou socialista. Pelo amor de Zeus ou Afrodite!! Tenho que admitir que o capitalismo, até certo ponto, ajuda a nos desenvolver profissionalmente, dá um pouco de ambição, desde que essa ambição não passe por sobre os outros como um rolo compressor, o que muitas vezes acontece…
Aí chega o ponto onde se separa a fotografia como arte e a fotografia como um produto vendável, de pronta entrega, em lindas embalagens numa prateleira. Nas minhas pesquisas constantes, em busca do conhecimento, do aprimoramento, me deparei com o anúncio de um estúdio fotográfico em que se alardeava o fato de fazerem de tudo um pouco. Recém-nascidos (newborn), infantis, casamentos (wedding), fotos sensuais (boudoir), gestantes, xerox, 3X4 e por aí vai. Tinha até um slogan muito bem adequado ao estilo: “Fotos em Geral”. Só faltou remoção de unhas encravadas, serviços de chaveiro, encanador, eletricista, etc…
Na minha opinião, sem julgamento, estritamente na minha opinião, quem se dispõe a fazer de tudo, mas tudo mesmo, o faz medianamente, sem critérios técnicos (quer saber de técnica, visite o espaço do meu amigo fotógrafo Renato Rocha Miranda clicando aqui!!!) sem acurácia. Tomem como exemplo, profissionais da medicina em clínica geral. Têm a visão geral do corpo humano, sabem das trocas celulares, dos fluidos corporais, das dores daqui que revelam problemas ali, mas quando começa a complicar, imediatamente e prudentemente encaminham pacientes para especialistas, pois sabem muito bem que profissionais da gastroenterologista (que cuidam do sistema digestivo e gástrico) não cuidarão bem de problemas na coluna vertebral. Ortopedistas não saberão nem por onde começar se forem postos a operar um problema no cérebro, operação que seria feita com maestria por especialistas em neurocirurgia…
A menos que se tenha nascido com dotes “divinos”, não se pode “ser bom” em tudo. Cada área do conhecimento, se for explorada, demandará anos de pesquisa, trabalho, transpiração, que só um ser dedicado poderá se aprofundar e prestar um bom serviço para a área a qual se dedicou. Quando vejo anúncios como aquele citado, fico temeroso se lá naquele local existem reais condições de receber um bebê recém-nascido, que necessita delicados cuidados em ambiente controlado, junto com pessoas fazendo retratos 3X4, produtos sendo fotografados, enfim, não dá para conceber.

Após dissertar sobre os chamados “faz tudo”, gostaria de dizer que eu não tenho absolutamente nada contra a comercialização das imagens sob encomenda. Nada. Acho que cada profissional ganha a vida como quer ou como pode. Algumas pessoas começam a fotografar, pegam gosto, cobram baratinho um aniversário do primo, um casamento da colega, um batizado e, com a prática, já pensam em cobrar um valor maior, montar um estúdio, divulgar, etc. Bom isso? Sim, bom! Optaram por tirar seu sustento única e exclusivamente da produção de imagens. Mas não se pode deixar de lado o estudo técnico, os fundamentos da forma de se escrever com a luz, sua propagação, como se reflete, como o equipamento funciona, como se dá a profundidade de campo, o foco, a nitidez ou desfoque. Sem esse embasamento teórico fica difícil a realização de um bom trabalho, seja na área de fotografia artística, documental, científica, médica ou muitos outros seguimentos que ela agrega. Sem isso, se banaliza o ato de fotografar. Se a única coisa que se sabe é que ao apertar um botão a foto está feita, se nivela por baixo o alto poder de um órgão que os seres humanos têm e poucos utilizam: o cérebro!
Por fim, a minha visão de Fotografia. Eu optei por fazer um trabalho autoral. Ideias surgem e eu as ponho em prática. Atento ao que acontece a minha volta, sempre observo tudo, olhares, gestos, construções, automóveis, segundo meu olhar, e os capturo com o que estiver disponível no momento. Com câmera ou celular. Não importa. E vou montando meu acervo, divulgando, participando de concursos, congressos, e me sustentando com alguma outra atividade que possa me render o mínimo necessário para a manutenção da vida e de meu equipamento. E mantendo o foco na minha arte, na minha forma de ver a vida, na minha maneira de ver o mundo. E me sinto feliz assim. Se um dia puder ser reconhecido pela minha forma de ver as coisas, será então o objetivo alcançado. E se for remunerado por isso então, será ainda melhor.
Comigo aconteceu uma inversão de valores. Por décadas achei que fotografia era um hobby bonitinho. E fui tocando o barco com atividades técnicas (acho que já nasci técnico, rs) que me sustentaram até hoje. E ficava às vezes por horas observando o funcionamento da câmera. O obturador, o diafragma, o conjunto de lentes deslizando por um tubo para realizar a focalização ou o efeito zoom. Hoje ainda amo apaixonadamente essa mecânica, a ciência do seu funcionamento mas, dou um peso importante no aproveitamento dessa técnica, dessa beleza mecânica e o que ela pode ajudar na captura das minhas imagens.
Desde criança (saiba mais sobre mim…) que tenho gosto pela fotografia, quando meu pai, um funcionário público dedicado me apresentou uma Kapsa, fabricada pela D. F. Vasconcelos (saiba mais sobre essa câmera e minha ligação com ela…). Mas só há uns 7 ou 8 anos é que pude perceber um estilo nascendo, pouco tempo para uma pessoa já com pouco mais de meio século de idade. É emocionante quando você percebe que pode fazer coisas legais, que pode se aperfeiçoar, que pode focalizar suas energias para a realização de um sonho, de um ideal. Aí, cria-se condições para o crescimento. Pude entender então minha total insatisfação com todos os lugares que trabalhei até hoje. Não tinha foco (desculpe o trocadilho…). Posso agora fazer qualquer coisa que me sustente, mantendo meu foco na criação fotográfica, na composição, no enquadramento, na construção artística, nos detalhes (saiba mais sobre detalhes que revelam mais detalhes clicando aqui!), nas luzes e nas sombras. Na arte de capturar momentos únicos.
Imagens:
Pixabay
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